"Gabriela, cravo e canela" de Jorge Amado

domingo, 9 de outubro de 2011

“Gabriela, cravo e canela”, mais do que um clássico, é um panorama da sociedade brasileira da Era do Cacau, por volta da década de 1930. E digo sociedade brasileira porque por mais que a história se passe em Ilhéus-BA, ela pode ser encaixada em muitas outras cidades, pois o perfil comportamental da sociedade como um todo era igual, distinguindo-se apenas no quesito de avanços tecnológicos - os quais as capitais costumavam ser mais avançadas.

Tecnicamente, este livro conta uma história de amor. E os percalços, desamores e dissabores que um amor pode causar em seu entorno, piorado pelo fato de este amor acontecer numa cidade pequena com costumes machistas e arcaicos. Você pode ler o livro desta forma, se assim lhe agradar e se assim você conseguir deixar de enxergá-lo como um clássico da literatura brasileira e vê-lo apenas como um romance. Ou, se você curte um desafio, pode lê-lo como um estudo histórico-social da formação da nossa cultura e sociedade moderna, afinal, muito do que hoje somos enquanto democracia livre pode ter sua germinação apontada no começo daquele centenário.

Particularmente fui estimulada a ler “Gabriela...” hoje, depois de dezoito anos do livro fechado em minha casa, por duas razões: a obrigatoriedade para a prova de mestrado que estou prestando e porque (talvez esta minha motivação maior) a novela “Cordel Encantado” tinha acabado e eu, que era fã, senti-me órfã. Não foi uma surpresa abrir o romance e já nas primeiras páginas identificar todos os personagens da novela global no romance de Jorge Amado: estão lá o político/coronel corrupto e aquele que luta pelo progresso da cidade (Ramiro Bastos e Mundinho Falcão), o árabe representante da já iminente miscigenação de nossa sociedade (Nacib, protagonista do livro), o poeta, a santa, a devassa, os bem casados, as fofoqueiras, o padre, a ninfeta, o advogado, etc. Todas personagens que podemos considerar esteriotipadas, mas que na verdade são representações dos poderes e do intelectualismo de uma geração pré-televisão. Também os nomes utilizados na novela estão no romance de Amado: Jesuíno, Altino, Chibungo...

Quem está acostumado aos fast-food-livros terá certa dificuldade com este. Explico-me: são muitos as personagens e muitas as histórias, intercalando-se e entrelaçando-se de tal modo que fatalmente o leitor se perderá (o que não é de todo ruim, visto que muitas vezes tem-se a impressão de que é esta mesma a sugestão do autor); embora Nacib, o árabe, seja o protagonista e embora já no prólogo o autor diga considerar o início do amor de Nacib e Gabriela o verdadeiro marco das transformações de Ilhéus, a história do romance começa muito antes disso ( na verdade Gabriela só vai aparecer depois da página 100, o que, considerando as 363 páginas do livro e considerando como os romances de hoje são escritos, pode acabar fazendo com que o leitor desista da leitura). Embora cerca de seis meses se passem na vida ficcional das personagens, temos a impressão de que é muito mais, considerando as muitas desventuras que ocorrem e, em contrapartida, o ritmo lento com que as coisas vão acontecendo – afinal, estamos na Bahia! Pressa pra quê?

“Gabriela, cravo e canela” é um clássico. Mas mais do que isso, é um marco, ainda que ficcional, de como nosso comportamento em sociedade mudou dos anos do cacau para cá, quase cem anos depois. E não apenas no quesito econômico, já que o ouro brasileiro hoje não é mais o cacau, mas na forma de resolver as coisas (já não se manda mais os jagunços matar os inimigos, né?), na posição e no papel da mulher na sociedade (mulher hoje não é mais pra ficar em casa cuidando da família e do fogão e servindo como um troféu a ser exibido nos bailes, né?), no preconceito racial e social (hoje não temos mais vergonha de casar com negros/mulatos ou de ser amigo de alguém mais pobre que nós, né?) e do poder dos QIs e das relações políticas nas eleições (não existe mais esse negócio de coligações nem de favores políticos, né?).

Cem anos depois, vemos que pouquíssima coisa mudou no Brasil, ainda que muita coisa tenha mudado. Aos leitores que quiserem entender mais, recomendo a leitura com tempo e prazer, afinal, não é um livro para ser devorado, mas sim saboreado, analisado e refletido.


Por Janda Montenegro.

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