"O Último Reino - Crônicas Saxônicas #1", de Bernard Cornwell

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Porque sou Uhtred, o earl Uhtred, Uhtred de Bebbanburg, e o destino é tudo."
Olá a todos! Minha última resenha escrita, depois de toda a treta do blog fora do ar, foi a de Grey. Antes de qualquer coisa preciso dizer que essa resenha superou todas as minhas expectativas: enquanto lia, meus amigos iam acompanhando o progresso, e quando anunciei que ela ia sair eles ficaram esperando para ler, comentaram aqui e no meu Face sobre o que acharam, e isso tudo foi muito legal. Então, eu prometi, lá no meu Face, que eu iria fazer uma resenha de um livro muito bom, para que eles vissem que não só de resenhas negativas Karine vive. E é por isso que estou aqui hoje.

Durante a leitura de Grey eu precisava de uma válvula de escape. No fim do mês de outubro estreou na TV americana a série The Last Kingdom (em breve resenha da primeira temporada, assim que ela terminar), inspirada nas Crônicas Saxônicas, do escritor Bernard Cornwell. Como tinha a ver com vikings, Idade Média e tal, e como eu ainda estava órfã da série Vikings (ainda estou), resolvi assistir. E gostei tanto dos dois primeiros episódios que resolvi que queria ler os livros. E foi assim que consegui minha válvula de escape para a terrível experiência da leitura de Grey: ia intercalando as duas leituras. E foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
E aprendi outra coisa. Inicie seus matadores ainda novos, antes que a consciência deles cresça. Inicie-os novos e eles serão letais.
As Crônicas Saxônicas contam como a Inglaterra se tornou um reino único e as lutas contra os dinamarqueses que assolavam os diversos reinos saxões com seus saques e invasões. O Último Reino, primeiro livro da saga, começa contando a história de Uhtred de Bebbanburg, filho de Uhtred (todos os senhores de Bebbanburg são Uhtred. Pois é. Imagine a confusão quando alguém chama), que foi levado e criado pelos dinamarqueses e se tornou um guerreiro feroz. E como ele conheceu Alfredo, que no futuro será chamado de O Grande, um dos maiores monarcas ingleses. Quem narra a história é o próprio Uhtred, fato que achei sensacional (aliás, foi o que me chamou a atenção para o livro, ao ver postagens de trechos numa página da série), pois adoro livros narrados em primeira pessoa por homens, é tão raro! E também pelo Uhtred ter um senso de humor irônico, sarcástico e muito cretino, que torna a leitura deliciosa. Seus diálogos com o Leofric são impagáveis (uma história de amor melhor do que Grey. Ops), porque juntam dois seres humanos de humor ácido, o que garante boas risadas (Leo melhor pessoa EVER). E é sob o olhar pagão de Uhtred que conhecemos Alfredo, o rei super devoto, de saúde frágil e mulherengo, sério e soturno, mas com uma cabeça engenhosa que maquina altas tretas por segundo. Sério, o cara é f*da! Você pode até odiar o Alfredo, mas precisa admitir que o cara é esperto.
Implacável, generoso, devoto, chato, esse é Alfredo - disse Leofric, mal-humorado.
Do lado dinamarquês temos a família de Ragnar, o Intrépido (favor não confundir com o Ragnar de Vikings), que foi quem raptou Uhtred do campo de batalha e o criou como um filho; e seu próprio filho, Ragnar, o Jovem. Temos Brida, a primeira amante de Uhtred, a garota saxã que também se tornou dinamarquesa, atrevida, corajosa e sem papas na língua, meio feiticeira meio guerreira. E temos os irmãos Lothbrok (agora sim, filhos do Ragnar de Vikings. Na série podemos vê-los crianças): Ubba, o malucão, fodástico, guerreiro poderoso, mito, divo, cara que nego pensa três vezes antes de enfrentar, e que só escuta as vozes dos deuses; Ivar, o Sem Ossos, que é chamado assim por ser magrelo como um vara pau, mas que é um guerreiro tão soturno que todo mundo se treme de medo dele; e Halfdan, que aparece pouco, mas que faz algum estrago. Guthrum, outro chefe dinamarquês, também tem destaque com seu jeito impiedoso e azarado. É contra essas pessoas bem gentis e legais (sqn) que Uhtred terá que lutar, se quiser suas terras de volta.
O destino é tudo. E agora, olhando para trás, vejo o padrão da jornada de minha vida. Começou em Bebbanburg e me levou ao sul, sempre para o sul, até que cheguei ao litoral mais distante da Inglaterra e não podia ir mais longe continuando a ouvir minha língua. Essa foi minha jornada de infância. Como adulto, fui para o outro lado, sempre para o norte, levando espada, lança e machado para limpar o caminho de volta até onde comecei. Destino. 
Algumas pessoas falam da suposta indefinição do Uhtred, afinal, ele é saxão ou dinamarquês? Ele ama o estilo de vida dos pagãos, cultua seus deuses, fala sua língua e considera-se filho do Ragnar, porém, quer porque quer Bebbanburg, que é sua por direito, a todo custo, e para isso, e apenas por isso, se alia a Alfredo e aos saxões de Wessex: como um meio para um fim. Por esse motivo ele luta as batalhas dos saxões do oeste contra os invasores, e muitas vezes dá a vitória ao rei e recebe como pagamento apenas um agradecimento, quando recebe (e é nessas horas que você odeia o Alfredo de todo o coração, por ele ser um filho da puta ingrato). Seu jeito espalhafatoso de guerreiro pagão faz um contraste maravilhoso com o jeito contido e devoto de Alfredo e dos outros saxões, o que rende passagens impagáveis.
Quem é o deus dinamarquês do mar? - perguntou (o padre Willbald) acima do ruído do vento. - Njord! - gritei de volta. Ele riu. - Reze para ele, que eu rezo a Deus. - Ri. - Se Alfredo soubesse que você disse isso, você jamais se tornaria bispo! - Não vou me tornar bispo se não sobrevivermos a isso! Então reze!
Uma vez eu comecei a ler um livro do Cornwell que não lembro bem qual era, e o abandonei, porque achei chato e extremamente descritivo. Esse é o estilo dele, mas em O Último Reino pude perceber que a escrita de Cornwell é impecável, tem uma narrativa que sabe dosar bem as cenas de ação e as descrições e tudo muito temperado com o humor ácido de Uhtred. Além de uma boa dose de História muito bem contada. Com a trilha sonora certa (às vezes eu lia ouvindo o álbum King of Kings, o novo do Leaves Eyes, que tem uma temática viking) dá pra viajar nas palavras e se sentir fazendo parte das lutas. O livro termina com um gosto irresistível de quero mais, e se ninguém te segurar você vai lendo um atrás do outro, pois é uma leitura fluida, que te prende, te seduz. Eu mesma não resisti e já estou lendo o segundo, porque a série de TV já engloba alguns acontecimentos dele. Recomendo a leitura para quem gosta do estilo, e pra quem gosta de um livro bem escrito, o que foi um alívio de verdade depois de Grey (tá, parei de alfinetar. Mentira, parei nada. APRENDE, E. L. JAMES!)

Minha classificação para esse livro é de  6/6- "Obra-prima".
Veja a cotação do livro no SKOOB e a opinião de outros leitores.

O Último Reino - Crônicas Saxônicas #1 Cornwell, Bernard. Editora Record, 2006, 364 p.


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