"Contos Para Uma Noite Fria", de Bruno Anselmi Matangrano

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O que eu vejo, o que sou e suponho / não é mais do que um sonho dentro de um sonho".
"Contos Para Uma Noite Fria", livro do autor paulista Bruno Anselmi Matangrano, fala de loucura. Do inquietante. Daquele arrepio que sentimos de vez em quando. De sopros de fantasia e distopia. São doze contos que exploram a perturbação da mente humana; doze contos que retratam a loucura, o medo, a inquietação, o absurdo. São mesmo contos para uma noite fria, e você até pode ler numa tarde de sol, mas vai sentir um arrepio na espinha.

Sim, isso mesmo! O livro não é de terror, mas as sutilezas dos acontecimentos por vezes macabros são de dar um pequeno arrepio na espinha. Principalmente no segundo conto, "O Germe da Imaginação", que me deixou descabelada dentro de casa. Imagine um mundo sem cultura. Sem música, teatro, filmes, LIVROS! Eu senti um desespero genuíno com esse conto, e a música que embalava o protagonista, Unwell, do Matchbox Twenty ficou na minha cabeça pelo resto da noite. Me senti louca com o professor de Literatura que se viu, de repente, sem seu alento, sem sua vida. E senti medo, muito medo, porque consegui sentir o que ele sentia, na pele. Acho que esse foi o conto que mais me tocou, por motivos óbvios. Outro que me fez viajar e entrar na história foi "A Melancolia do Piano". Na epígrafe é sugerido que se leia ao som de Trois Gymnopédie, de Eric Satie, e, ao ver meu celular ao lado (Deus abençoe a tecnologia), digitei no Google abri no primeiro link do YouTube, e fiz o que o autor sugeria. Enquanto lia, embalada pela música, uma foto do compositor da música me observava no vídeo. Se você for ler, tente fazer isso também. A música penetrou meus ossos, e o olhar de Satie junto com o tema do conto... É uma experiência a ser vivenciada. Abaixo, o vídeo da música, para quem ficou curioso:


Há contos distópicos também, como "O Futuro da Humanidade", e esse também me encheu de desespero, porque imagine o mundo acabar e você ser o último ser VIVO da Terra! Esqueci todo e qualquer filme com a mesma temática, porque nesse conto toda a situação é retratada de um modo tão brutal que beira ao desespero. Aliás, todos os contos beiram ao desespero, e a escrita de Matangrano, primorosa, ajuda nisso. Ele te faz sentir, e não são coisas boas. Ele te insere na história. É um livro curtinho, mas tão intenso que quando você termina fica em posição fetal olhando pro teto e pensando que enlouqueceu também. Parece que o mundo está de cabeça para baixo, igual ao conto "Gravidade às Avessas", no qual o protagonista acorda e o mundo virou de ponta cabeça. Nesse conto, aliás, foi a melancolia que venceu o desespero, a muda aceitação, a beleza do caos, o "a vida deve continuar". Como nos contos "O Viajante" e "Entre o Tempo e o Espaço": a vida tem que continuar, mas como, de que maneira? Os dois contos se completam, mas o final do primeiro é mais esperançoso. A propósito, eles são, respectivamente, o primeiro e o último conto do livro, mas não devem ser lidos juntos. Porque, quando fui ler o último e vi que era continuação, levei um baque e o desenrolar da história foi de matar! E encerrou o livro! Foi a cereja no bolo.

Como eu disse antes, a escrita de Matangrano é primorosa, um deleite para os olhos e para a mente. Poucos são os autores nacionais contemporâneos que eu já li que têm essa escrita refinada, e no momento só consigo pensar no Kizzy Ysatis. Ele consegue te fazer sentir o que os personagens sentem, consegue te colocar dentro da história, dentro daquela nuvem de desespero, loucura e medo, e tudo isso com uma linguagem refinada mas sutil: até o mais grotesco é retratado de forma elegante. As artes do livro ficam por conta da ilustradora Dandi, e conseguem captar bem a temática de cada conto de modo sombrio, sensível e exato. Além do que, são belas ilustrações! A capa retrata bem a melancolia de alguns contos: o desenho, as cores escolhidas, o movimento sugerido. A diagramação de Marcelo Amado complementou tudo isso: as páginas pretas, os pássaros, a fonte utilizada, tudo se completou à atmosfera do livro. O único defeito dele, se é que posso chamar assim, foi ser tão pequeno: 117 páginas. Mas, talvez, o tamanho seja ideal: se fosse maior iria me afundar ainda mais nesse mundo louco do Bruno e ter ainda mais arrepios mesmo no calor das tardes de dezembro.


Aqui, Unwell, do Matchbox 20. Fique com ela na cabeça o resto do dia. De nada.


Minha classificação para esse livro é de  5/6- "Excelente".
Veja a cotação do livro no SKOOB e a opinião de outros leitores.

Contos para uma Noite Fria. Matangrano, Bruno Anselmi. Editora Vermelho Marinho, 2014, 120 p.


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