"Presos que menstruam" de Nana Queiroz

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

– “Aqui o trabalho, a disciplina e a bondade resgatam a falta cometida e reconduzem o homem à comunhão social.”
No final da frase, uma funcionária cochicha ao meu ouvido:
– Mentira...
Já parou para pensar no cotidiano dos outros? De pessoas que não fazem parte do seu ciclo de amigos ou conhecidos? Daqueles que aprenderam a ser ignorados pela sociedade e agora acreditam que isso é normal? Deixar um ser humano de lado, sem dar importância às suas necessidades básicas, está longe do que conhecemos como algo a ser considerado dentro dos padrões de normalidade. 

Atualmente, vários tabus estão sendo quebrados, algo extremamente necessário. A jornalista Nana Queiroz decidiu contribuir com isso e reuniu num livro informações adquiridas através de suas visitas aos presídios femininos brasileiros, entrevistas e depoimentos das presas. mostrando para a comunidade uma situação que a maioria acha melhor não enxergar.

É fácil ver nos meios de comunicação notícias de milhares de pessoas que são levadas para cadeias todos os dias, o difícil é encontrar na mídia espaços que promovam a discussão sobre as condições às quais esses presos são submetidos. Mais difícil ainda é ter acesso a um material que retrate o cotidiano das prisões femininas do país, já que nesse quesito, assim como em muitos outros, as mulheres são diversas vezes esquecidas.
– Sabe, Heidi, eu escuto tantas histórias. As presas sempre se justificam, e eu fico sem saber quando posso acreditar.
– Quando pode acreditar totalmente? Nunca. Existem muitas verdades no mundo: a verdade da presa, a verdade do juiz, a verdade da vítima. E não é que ela está mentindo, mas é que na cabeça dela aquilo é verdade. É a verdade da qual ela se convenceu.
Ao intercalar capítulos sobre os motivos que levaram aquelas mulheres a serem presas e sobre a vida que elas levam nas prisões, Nana Queiroz causa diferentes sentimentos ao leitor. Desconforto, revolta, tristeza, aflição, desejo de lutar pelos direitos que são negados a essas presidiárias. É impossível, ou quase, terminar essa leitura sem sentir vontade de se manifestar sobre essa situação absurda, de questionar o poder público e de impedir que essas barbaridades continuem ocorrendo.

Como eu disse anteriormente, é complicado ver na mídia matérias sobre esse assunto, por isso em vários momentos durante a leitura existe a sensação de choque, de não acreditar naquilo que está escrito. Depois de perceber que muitas mulheres são submetidas à falta de suprimentos básicos, principalmente relacionados a sua higiene, à carência de contato com as pessoas que amam, já que muitos familiares sentem-se constrangidos devido aos duros procedimentos exigidos para uma simples visita e acabam abandonando as presas, e ao tratamento desumano por parte dos funcionários do Estado, é muito improvável que você não mude algo na sua maneira de pensar e de ver o mundo.

Presos Que Menstruam é um forte compilado de relatos que retratam uma triste realidade do nosso país, a qual muitas vezes preferimos ignorar e fingir que não nos diz respeito, aumentando o sentimento de indiferença da sociedade brasileira.


Minha classificação para este livro é de ♥ 4/6-  "Muito Bom".
Veja a cotação do livro no SKOOB e a opinião de outros leitores. 

Presos que menstruam. Queiroz, Nana. Galera Record. 2015, 294 p.







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