{Séries} "The Young Pope", HBO (2016)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Eu sei que sou incrivelmente bonito, mas, por favor, vamos tentar esquecer esse detalhe.
Ok, tem uma série com o Jude Law interpretando um papa rolando por aí desde o final do ano passado e ninguém me fala nada! Vou deixar isso passar. Assim que fiquei sabendo da série, através das propagandas do serviço de streaming da Fox, corri pra assistir e, mano, pense numa série que você começa a ver e simplesmente não consegue mais parar e fica embasbacado com tudo e seu trabalho de vida se torna divulgar e enaltecer aquela obra prima para que a maioria das pessoas no mundo conheça. Foi isso que aconteceu comigo. Essa série é uma obra de arte, bicho! 

Jude Law interpreta Lenny Belardo, o primeiro papa americano da História. Mas como foi que alguém tão jovem, na flor dos seus 47 anos (lembrem-se que pra ser papa tem uma idade mínima que agora não me recordo, mas é bem mais velho que isso) e ainda por cima americano, foi eleito como líder da Igreja Católica? Fácil, e isso posso responder sem medo de dar spoiler: manipulação. Os cabeças do Vaticano mexeram seus pauzinhos para que o jovem cardeal americano fosse eleito para que pudessem manipulá-lo a seu bel-prazer e governarem a Igreja nas sombras. Só que o negócio não saiu bem como esperado. Tudo começou quando o novo papa escolhe como nome Pio XIII. Pra quem não sabe, os últimos papas com esse nome foram sinônimo de polêmica na Igreja, metidos até o topo de seus chapéus em fascismo e nazismo. Ou seja, menino Lenny já mostrou de cara que não estava ali de brincadeira. E logo colocou todo mundo em seu lugar com seu jeito excêntrico, mostrando que iria governar a Igreja com mãos de ferro.


É aí que mora a beleza da série. Quando você vê que se trata de uma série sobre um papa jovem e americano, você imediatamente pensa que ele será extremamente liberal, talvez até libertino. A primeira cena, icônica, mostra o novo pontífice fazendo um discurso, digamos, nada ortodoxo para uma praça de São Pedro lotada. Depois, em seu primeiro dia como chefe de Estado, ele declara que seu café da manhã consiste apenas em uma Cherry Coke Zero. Bem moderno, né? Sim, ele é bem moderno. Ele cita a banda de música eletrônica Daft Punk e o artista de rua Banksy para sua assessora de imprensa para exemplificar porque não quer aparecer para a mídia, criando uma aura de mistério em torno de sua pessoa. O novo pontífice fuma e muito. Mas se você, assim como eu, estava esperando uma pessoa liberal, você vai encontrar o extremo oposto. Pio é super conservador, ao contrário de seu antecessor (aqui dá a entender que foi Francisco.) E quando digo super, é EXTREMAMENTE. Seu novo governo inclui a exclusão de pessoas homossexuais, intolerância ao aborto, zero ecumenismo e uma igreja mais fechada em si mesma, para que, assim, possa encontrar a Deus. Pois é. Seus discursos são duros de ouvir, porém, seu charme faz com que você não consiga odiar o infeliz! Porque você, aos poucos, vai conhecendo sua história e sabendo de suas fragilidades e vulnerabilidades. Jude Law fez um trabalho tão espetacular que você acredita que ele nasceu pra ser Lenny Belardo. E nem vou falar do resto do elenco, com Diane Keaton maravilhosa, inclusive.

O cara é doido. Usa óculos escuros, fuma, usa Havaianas branca, moletom, malha e é um homão da porra sim. Faz malabarismo com laranjas, tem sotaque nova-iorquino, um ego lá nas alturas e gosta de ser tratado como um deus na Terra. Tem um lado meio místico também, até um pouco milagroso, que leva a série para um certo realismo fantástico. Suas ideias podem ser muito retrógradas - como achar que pedofilia e homossexualidade tem alguma coisa a ver - mas o bicho é tão inteligente e sabe lidar tão bem com seus "inimigos" que você não pode deixar de admirá-lo. E falando em inimigos, eles são tão carismáticos, que você se pega torcendo por eles em muitos momentos (Voiello, melhor pessoa). A série é surreal demais. O produtor, Paolo Sorrentino, que ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 2013 por "A Grande Beleza", nos entrega uma fotografia esplêndida, locações espetaculares, um visual de tirar o fôlego e tomadas sensíveis que mostram a solidão do pontífice e a vida ordinária e ao mesmo tempo um tanto quanto bizarra dentro dos muros do Vaticano, com cenas lindas das freiras colhendo laranjas, colocando lençóis brancos pra secar, jogando futebol em câmera lenta e padres fazendo o que fazem ao acordar. Além de uma trilha sonora ridiculamente maravilhosa que mistura clássicos como a Ave Maria de Gounoud e Sexy And I Know It, de LMFAO, essa última numa cena MARAVILHOSAMENTE FANTÁSTICA que eu dificilmente vou esquecer. Pense no quão épico é um papa se vestindo com suas roupas mais tradicionais ao som dessa música?


A série tem algumas cenas de sexo, não podia deixar de ter. Umas bem pesadas. Tem violência e palavrões. Toca em questões sérias como homossexualidade na Igreja e a maior de todas, pedofilia. Mas há uma sensibilidade sem tamanho também, com longas conversas filosóficas a respeito de Deus, de vocação, de solidão. Temos a solidão e a vulnerabilidade de Lenny, que foi abandonado pelos pais hippies na porta de um convento quando era criança, e essa busca o assombra em todos os momentos, ajudando a torná-lo o homem que é, inclusive. Mas se tem uma série que eu recomendo é essa. Apenas uma das melhores séries que eu vi esse ano junto com Legion. Uma obra de arte que me deixa até sem palavras. Muita gente não quis ver por achar que se trata de um desrespeito à Igreja Católica, mas não é nada disso. Eu sou católica e praticante e amei a série num nível que vocês não tem noção! O final deixou claro que a produção se trata de uma minissérie de 10 episódios, com direito a THE END e tudo no fim, mas qual não foi minha surpresa ao saber que a segunda temporada foi liberada esse ano! Pode ser que demore um pouco porque Sorrentino é cineasta e está envolvido em seus projetos, mas vai sair e isso já é uma grande notícia, principalmente depois daquele final que eu não engoli, apesar de ter achado lindo. O que eu posso dizer é MEU PIO ESTÁ VIVOOOOOOO! 

Abaixo, a cena fatídica do Sexy And I Know It e a abertura da série, que eu amo (o nome da música é "(All Along The) Watchtower - Instrumental", de Devlin).




Minha classificação para essa temporada é de  6/6- "Obra Prima".
Veja a cotação da série no IMDb e a opinião de outros espectadores.

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