{Séries} "Black Sails", STARZ (2014)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Everyone is a monster to someone.
Tenho certeza de que você não assistiu a Black Sails. Tenho quase certeza de que você pode não ter nem ouvido falar nela, mesmo tendo as três primeiras temporadas disponíveis na Netflix. Porque trata-se de uma das séries mais subestimadas da atualidade. Eu mesma a conheci por indicação de amigas e de páginas e grupos da série Vikings, e mesmo assim demorei a assistir. E não sei porque demorei tanto. Senhoras e senhores, QUI SERIEZONA DA PORRA!

Black Sails é uma espécie de prequel. Sua história se passa vinte anos antes dos eventos narrados no livro "A Ilha do Tesouro", de Robert Stevenson, um clássico da literatura mundial. Sabe o pirata da perna de pau? O papagaio de pirata? O mapa do tesouro com um X marcando o local? A cantiga de piratas com "yo-ho, e uma garrafa de rum"? Tudo isso veio desse livro, que é meio que a fonte de onde veio tudo o que você já viu sobre piratas, desde os desenhos até "Piratas do Caribe" (a musiquinha do rum tá lá). Você pode não estar muito familiarizado com nomes como Capitão Flint, Billy Bones ou Long John Silver, mas eles são personagens clássicos da literatura que inspiraram muita gente (John Silver faz parte das histórias de Peter Pan, inclusive, diz-se que ele foi uma espécie de mentor do Capitão Gancho. Quer ser Long John Silver, vai estudar). Então, pra quem conhece o livro, deve ser muito legal ver a história ir se formando e crescendo à medida que a lenda é contada. Além do mais, muitos personagens da série são baseados em piratas que existiram de verdade, como o temido Charles Vane. Muita coisa ali é histórica ou baseada num clássico da literatura então, POR QUE DIABOS ESSA SÉRIE NÃO É MAIS CONHECIDA, DIVULGADA E ENALTECIDA?

Bom, o lugar é Nassau, uma ilha, colônia inglesa no Caribe, e a época é a chamada Era de Ouro da pirataria, quando os fora-da-lei aterrorizavam os sete mares com seus navios roubando, digo, saqueando tudo. É aí que encontramos Capitão Flint e seu famoso navio Walrus no meio de uma abordagem na qual eles encontram um jovem suspeito que se diz cozinheiro que acaba entrando pra tripulação. Mas os ânimos estão exaltados, pois os saques têm sido baixos, os homens estão putaços e armando um motim. Mas Flint, que é daqueles personagens porreta, quer é mais: o que ele procura é maior do que um simples saquezinho, é a rota de um navio espanhol repleto de ouro que pode garantir a aposentadoria de até a décima geração de cada homem ali. E quando confrontado, dá um jeito na situação manipulando a tripulação na surdina, mentindo e omitindo. Ou seja, melhor pessoa. Virei #TeamFlint no primeiro episódio. Amo personagens inteligentes, mesmo gênios do mal. Conhecemos também Eleanor Guhtrie, que manda e desmanda no comércio da ilha, dona e proprietária da empresa Nassau e outros personagens como Charles Vane, o piratão da porra. A primeira temporada que geralmente é aquela coisa mais parada de apresentação e construção de personagens, segue meio lenta, mas mesmo assim assisti todos os 8 episódios em apenas um dia. Não faltam batalhas, lutas, tretas, sexo (muito sexo), nudes (femininos E masculinos, amém Starz!) e muita violência. Mesmo com episódios de aproximadamente 1 hora de duração dá pra assistir tudo feliz. A partir da segunda a série vai crescendo na trama e coisas são explicadas, conhecemos o passado de Flint (QUE PLOT TWIST, SENHORAS E SENHORES!) e tudo vai começando a se encaminhar e se encaixar. E depois disso é só ladeira acima até o acertado e perfeito final da série, com apenas 4 temporadas e 38 episódios.


Eu tenho muito a falar de Black Sails. Mas vamos por partes. As mulheres. A série é sobre piratas, então poderia se esperar uma coisa bem machona acompanhada da desculpa de que "na época era assim" (alô, Game of Thrones, estou falando com você). Mas não é isso que vemos. De cara vemos Eleanor Guthrie conduzindo sua taberna e o comércio na ilha com mãos de ferro, exercendo sua influência para o Bem e para o Mal. Mulher resolvida, solteira, sem filhos, que não luta, mas que usa sua astúcia e inteligência para conseguir o que quer (porque as mulheres podem ser fodonas sem ser guerreiras. Alô, fandom de Vikings, estou falando com vocês agora). Infelizmente o personagem acaba indo para um caminho mais fraco a partir da terceira temporada e se perde do que era no início. Mas calma que tem outras. Max, a prostituta, é uma delas. Ela começa a história como uma simples prostituta mas vai escalando seu caminho para o topo até conseguir um papel de destaque na trama. Seu relacionamento com Eleanor é o combustível para algumas mudanças necessárias na história. Sim, um relacionamento lésbico. Espere cenas de sexo de todo tipo desde o primeiro episódio. Temos também Anne Bonny, companheira de Jack Rackham, essa aí sim representando a classe das guerreiras. Mulher do mar, que se veste como homem, é casada com o esperto Jack desde os 13 anos de idade, quando ele a salvou de seu marido embuste anterior. Essa aí é daquelas que não leva desaforo pra casa mesmo, típica badass mesmo. Ainda temos Miranda Barlow, a misteriosa amiga de Flint, que esconde segredos, única pessoa em quem o capitão confia, mulher rodeada de lendas na ilha. Enfim, é muito girl power pra uma série só, e isso é lindo de ver. (tem mais exemplos além desses. Você ainda vai ver uma rainha mandando em uma ilha inteira, uma princesa comandando ao lado de homens, uma esposa que manda nos negócios do marido, enfim, a lista é boa).

Outra coisa que eu queria falar é a respeito de algo que foi o principal motivo que me deu mais gás pra assistir à série. Em comentários no país Facebook sobre indicações de séries, vi muita gente falando maravilhas de Black Sails, mas vi comentários de gente dizendo que tinha parado de ver quando "começou a viadagem", ou seja, quando um personagem se revelou gay. "Um pirata gay, pensei, que hino, vou começar hoje mesmo!". Sim, um dos piratas é gay. Tô me segurando pra não dar spoiler porque eu tenho certeza de que você não viu Black Sails. Vemos cenas de pegação gay? Infelizmente Não. Mas vemos cenas de sexo lésbico desde o primeiro episódio, vemos um casal de mulheres, temos uma personagem bissexual e apenas um beijo entre dois homens afetou a frágil masculinidade de certas pessoas. Mas, ok, segue o baile. O que eu quero dizer mesmo é que Black Sails fez mais pelos LGBTQs do que outras séries ou filmes. Não é um personagenzinho gay que é jogado ali pra mostrar diversidade, são personagens importantes para a trama e seus relacionamentos mudam o curso da história. O relacionamento de Eleanor e Max afetou o futuro das duas e de toda a ilha, um outro relacionamento moldou um dos personagens principais e fez dele quem ele era, ou seja, foi crucial para toda a série. E a série não é focada nisso, esse não é o mote principal, mas tá ali, nas entrelinhas, a importância desses relacionamentos homoafetivos. E tudo isso, tudo isso aí, sem deixar de ser uma série de piratas, com muita violência, palavrões, tretas, tiro, porrada e canhões.

O episódio final foi o primeiro episódio de série que me fez chorar de felicidade. Tudo se resolve do modo menos óbvio possível e foi tudo tão absurdamente lindo que eu nem consegui dormir e precisava conversar com alguém (não encontrei ninguém porque, você sabe, quase ninguém viu Black Sails. E quem viu não estaria disposto a bater papo às 2h da manhã). Também houve reclamações quanto ao final, mas QUEM LIGA? Gosto mais de resoluções que me surpreendam e essa foi pra arrasar meu coração. John Silver, um dos personagens que também vai crescendo aos poucos até virar uma lenda, se consolida como Long John Silver, o temido pirata de uma perna só (nem é spoiler se tem um livro clássico sobre ele, né non). E a série se encerra assim, curtinha, com apenas 4 temporadas pequenas, sem encheção de linguiça, perfeita, repleta de aventuras, ação e reviravoltas. A produção é cinematográfica, uma das mais caprichadas que já tive o prazer de ver. Até a abertura é um lacre, detalhada, simples, mas engenhosa, regida por uma música-chiclete maravilhosa que te dá vontade de dançar; uma daquelas aberturas que dá dó de pular, umas das mais bonitas da atualidade. E se nada disso te fez sentir vontade de assistir, vou colocar uma foto aqui pra te ajudar.

Da esquerda para a direita: Billy Bones, Long John Silver (na frente), Flint e Charles Vane. Pode embalar tudo pra mim que eu levo.

Minha classificação para essa série é de  6/6- "Obra Prima".
Veja a cotação da série no IMDb e a opinião de outros espectadores.

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